quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

TIO TONICO, O HIPOCONDRÍACO...

 Coitado do meu tio Tonico...


Meu tio Tonico estava muito bem de saúde, até que sua esposa, minha tia Marocas, a pedido de sua filha, minha prima Totinha, disse-lhe:

-Tonico, você vai fazer 70 anos, está na hora de fazer um check-up com o médico... 

- Para quê, se estou me sentindo tão bem? (indagou o titio)

-Porque a prevenção deve ser feita agora, quando você ainda se sente jovem...
(disse-lhe a minha tia Marocas). 



Então meu tio Tonico foi ver um médico.

O médico, sabiamente, mandou-o fazer testes e análises de tudo o que poderia ser feito e que o plano de saúde cobrisse.

Duas semanas mais tarde, o médico disse que os resultados estavam muito bons, mas tinha algumas coisas que podiam melhorar. Então receitou:

Comprimidos Atorvastatina para o colesterol

Losartan para o coração e hipertensão,

Metformina para evitar diabetes,

Polivitaminas para aumentar as defesas.

Norvastatina para a pressão,

Desloratadina em alergia.

Como eram muitos medicamentos, tinha que proteger o estômago, então ele indicou Omeprazol e um diurético para os inchaços.

Meu tio Tonico foi à farmácia e gastou boa parte da sua aposentadoria em várias caixas requintadas de cores sortidas.

Nessas alturas, como ele não conseguia se lembrar se os comprimidos verdes para a alergia deviam ser tomadas antes ou depois das cápsulas para o estômago e se devia tomar as amarelas para o coração antes ou depois das refeições, voltou ao médico. Este lhe deu uma caixinha com várias divisões, mas achou que titio estava tenso e algo contrariado.

Receitou-lhe, então, Alprazolam e Sucedal para dormir.

Naquela tarde, quando ele entrou na farmácia com as receitas, o farmacêutico e seus funcionários fizeram uma fila dupla para ele passar através do meio, enquanto eles aplaudiam.

Meu tio, em vez de melhorar, foi piorando.

Ele tinha todos os remédios num armário da cozinha e quase já não saia mais de casa, porque passava praticamente todo o dia a tomar as pílulas.

Dias depois, o laboratório fabricante de vários dos remédios que ele usava, deu-lhe um cartão de “Cliente Preferencial”, um termômetro,  um frasco estéril para análise de urina e lápis com o logotipo da farmácia.

Meu tio deu azar e pegou um resfriado.

Minha tia Marocas, como de costume, obrigou-o a ficar de repouso, na cama, mas desta vez, além do chá com mel, chamou-lhe também o médico.

O Douror disse que não era nada anormal, mas prescreveu-lhe  Tapsin para tomar durante o dia e Sanigrip com Efedrina para tomar à noite.

Como estava com uma pequena taquicardia, receitou-lhe  Atenolol  e um antibiótico, 1 g de Amoxicilina, a cada 12 horas, durante 10 dias. Apareceram fungos e herpes, e ele receitou  Fluconol  com  Zovirax.

Para piorar a situação, Tio Tonico começou a ler as bulas de todos os medicamentos que tomava, e assim ele ficou sabendo sobre todas as contraindicações, advertências, precauções, reações adversas, efeitos colaterais e interações médicas.

Leu coisas terríveis. Não só poderia morrer mas poderia ter também arritmias ventriculares, sangramento anormal, náuseas, hipertensão, insuficiência renal, paralisia, cólicas abdominais, alterações do estado mental e um monte de coisas terríveis.

Com medo de morrer, chamou o médico, que lhe disse para não se preocupar com essas coisas, porque os laboratórios só colocavam essas lorotas para se isentar de culpa.

- Calma, seu Tonico, não fique aflito, disse médico, enquanto prescrevia uma nova receita com um antidepressivo Sertralina  com Rivotril 100 mg. E como titio estava com dor nas articulações deu-lhe Diclofenac.

Nessa altura, sempre que o meu tio recebia sua gorda aposentadoria, ia direto para a farmácia, onde já tinha sido eleito cliente VIP.

Chegou um momento em que na rotina diária do pobre do meu tio Tonico não tinha horas suficientes para tomar todas as pílulas, portanto, já não dormia, apesar das cápsulas para a insônia que haviam sido prescritas.

Ficou tão ruim que um dia, conforme já advertido nas bulas dos remédios, o velho morreu.

No funeral tinha muita gente mas quem mais chorava era o farmacêutico.

Agora tia Marocas diz que felizmente mandou titio para o médico bem na hora, porque se não, com certeza, ele teria morrido antes.



Este relatório é dedicado a todos os meus amigos, sejam eles médicos ou pacientes ..!

Qualquer semelhança com fatos reais será “pura coincidência”

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