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BLOG DE GERALDO MOTA (O BLOG DO LALAU) tem como objetivo divulgar a arte, o folclore, as notícias do cotidiano e as pontencialidades econômicas de toda região fanadeira. ESTA FOTO ACIMA É UMA HOMENAGEM A "ZÉ DE DURVAL", meu pai, que muito se orgulhava de ter sido "Rei do Rosário" e que me ensinou a valorizar o trabalho honesto, as tradições, o folclore, o artesanato, como verdadeiro exemplo de cidadania e de amor à cidade histórica de Minas Novas.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Saúde, paz, comunhão cristã e solidariedade
PARA QUE VOTAR EM SENADOR DESSA REPUBLIQUETA
Epa, não somos beócios!
Um fato me chama a atenção nos entreveros do Senado Federal:
- Por que será que o senador Fernando Collor, do alto de sua vanglória de valentão, não aparteia senadores antagônicos para refutar-lhes insinuações de que ele e outros fazem parte da tropa de choque que protege o senador Sarney, por ocasião do término dos trabalhos?
Ao senador Pedro Simon, o desqualificado ex-presidente se arvorou e teve aquele lamentável comportamento, o qual servirá de momentos inesquecíveis e ficará como peça de mau exemplo parlamentar, presenciados por muitos, no Senado Federal.
E nesse contexto de enegrecimento do Senado, que culminou na quinta-feira, dia 6/8/2009, com o pronunciamento acusatório do senador Renan Calheiros contra senador Arthur Virgílio, eis que o ilustre senador Demóstenes Torres faz veemente manifestação censurando o comportamento de membros daquela Casa. Neste caso, em particular, tudo seria elogiável se o respeitável representante goiano não tachasse de beócios (ignorantes) muitos brasileiros que desejam o fechamento do Senado Federal.
Foi uma indelicadeza com a qual não concordamos, pois as manifestações democráticas devem ser respeitadas. Há poucos dias, o presidente Lula chamou os opositores do |Bolsa Família| de imbecis e ignorantes. Se a moda pegar...
O senador Demóstenes Torres deveria se retratar, pois: ou se respeita quem tem cultura política, para ter-se coragem de dizer que esta ou aquela instituição pública não cumpre os seus deveres constitucionais, o que recomendaria, portanto, neste caso, a sua aconselhada inexistência; ou será que deveria prevalecer, no País, a sociedade alienada, politicamente, que não se importa com nada, que não se cuida ao eleger qualquer um, ficando calada e aceitando, como aí está, o trôpego, dispendioso e inoperante Senado Federal. "To be or not to be".
Vejam, senhores, que a falta de vergonha tomou conta do Senado.
O senador José Sarney se considera um injustiçado e a gente tem que "engolir e digerir" todas as suas inverdades.
O Senado não pode se transformar num circo de atores mambembes. O seu Conselho de Ética, formado por muita gente em dívida com a Justiça e vergonhosamente compromissada com o senhor Sarney, é o espelho da desmoralização.
Afinal, para que serve, então, o Senado?
Para gastar o dinheiro do contribuinte?
Logo, para que votar em senador?
As práticas viciadas, a subsistência, em pleno século 21, da força dos coronéis do (sertão) Norte/Nordeste, o olhar furioso e mordaz do senador Collor, o deboche explícito de Renan Calheiros, Wellington (suplente) Salgado, Paulo (suplente) Duque, Gilvam Borges e outros indecorosos dão o tom da falta de decoro da Casa.
O Senado Federal é o retrato preto e branco desbotado da imagem política brasileira, maltratada por mau comportamento de políticos que só querem tirar proveito das benesses públicas, sugam o dinheiro da Nação e enganam o povo.
Há políticos honestos no Senado, mas são poucos.
O que nos resta? Só Deus sabe... porque enquanto no regime presidencialista, em que neste sistema político é bicameral, não for modificado e introduzidos princípios de democracia direta e semidireta, tudo continuará como está.
E nós não podemos ou poderemos ser chamados de beócios.
Julio César Cardoso
geraldo mota
http://geraldomotacoelho.blogspot.com/
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
ZILDA ARNS

ZILDA ARNS
Z -elar pelos fracos e sem defesa, sua missão
I-mportante para ela era fazer o bem, sem esperar retorno
L-ivre de preconceito, não fazia distinção de pessoas
D-iante de qualquer situação, não media esforços em servir
A-inda que para isso tivesse que renunciar tudo que lhe dava conforto
A-njo mulher, mensageira da paz e do amor
R-osa perfumada, exalando amor para com todos
N-aturalmente bela, interiormente, criança esperança
S-inônimo de fraternidade, amor que alcança longínquos recantos.
(Graci)
--
geraldo mota
http://geraldomotacoelho.blogspot.com/
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
A SAUDOSA “MESTRA PIQUITITA”
DA CULTA E HISTÓRICA CIDADE DO SERRO
(Geraldo Magela Mota Coelho)
Maria Eremita de Souza, mestra da arte de ensinar, muito mais que professora, foi uma grande educadora e produtora ímpar de conhecimentos, fonte indeclinável dos estudiosos de fatos relacionados a toda a região do Serro e, por conseguinte, de todo o Vale do Jequitinhonha. Era carinhosamente conhecida por Dona Piquitita, essa mulher guerreira, batalhadora e extraordinária no exemplo deixado de civilidade e amor patriótico ao Brasil e à sua querida Vila do Príncipe.
Essa respeitável senhora e valiosíssimo arquivo vivo da história de todo o nordeste mineiro, tinha o hábito exemplar de estar constantemente garimpando livros remanescentes de antigas administrações públicas, de cartórios, de anotações das freguesias e paróquias, compulsando correspondência epistolar entre antigos moradores e colecionando artigos publicados em jornais dos séculos 19 e 20, abastecendo sua saudável curiosidade nos registros escritos e nos que se conservaram pela tradição oral, com os quais estudava os costumes, as tradições e buscava descrevê-los com precisão, isenção e graciosidade, através de uma visão objetiva e a lente privilegiada de quem tinha nas veias o DNA dos pioneiros, contextualizando suas narrativas ao ambiente que, a um só tempo, era o cenário original e o seu campo de convivência e de dedicação científica e pedagógica. Foi desta forma que resultou, no curso de sua longa e produtiva existência, uma obra considerável, uma produção literária que está a exigir e a merecer ampla divulgação em edições a serem URGENTEMENTE colocadas à disposição da rede de ensino, em todos os níveis e segmentos, dada a sua importância para o conhecimento de uma história tão rica, quanto desconhecida, que é a história dessa região mineira hoje compreendida pela área conhecida como Vale do Jequitinhonha, mas que, na verdade, comporta também as dimensões geográficas banhadas pelos rios Mucuri, São Mateus e Rio Doce.
Tive a honra e o privilégio de conhecê-la e com ela conviver durante vários dias em que estive na aprazível cidade de Serro, em julho de 1979, na condição de pesquisador, em missão confiada pelo Sr. Luiz Gonzaga Gomes Leite, Secretário Geral da Comissão Municipal Organizadora das Comemorações pelos 250 anos de Fundação da Vila do Fanado, evento que culminou com a visita, em 02 de outubro de 1980, do Presidente da República, General João Batista Figueiredo, de inúmeras autoridades governamentais, de grandes empresários e de turistas à cidade de Minas Novas, numa série de acontecimentos e inaugurações que, finalmente, muito contribuíram para melhorar as condições calamitosas na qual se penalizava uma população ordeira e trabalhadora, mas completamente degredada naquela paupérrima região, onde passei a trabalhar, por mais de duas décadas, como funcionário de carreira do Banco do Brasil.
A professora Piquitita, lúcida e meiga, elegante no trato, admirável pela educação e respeitada pela sua estatura moral de exemplar cidadã e operária incansável no labor comunitário em prol de todo o município do Serro, era querida e admirada por todos que dela se acercavam. De simplicidade franciscana, tinha porém o porte soberano das pessoas bem formadas para o exercício da liderança responsável e produtiva de ações em benefício da coletividade, com o desprendimento que bem caracterizam estes seres raros e, por isto mesmo, especiais.
Dela tenho as melhores recordações e conservo na memória o seu jeito terno e carinhoso, quase que solene, de tratar dos assuntos relacionados à história de sua amada terra natal, de cuja saga marcou presença em momentos significativos, mas também de forma segura se reportando às origens, aos primórdios, ao desenrolar de toda uma existência na qual se entrelaçam todos os fatos comuns a ambos os municípios, de que nos ocupávamos como estudiosos, mormente aos que a mim me interessavam mais diretamente, aqueles associados à Vila do Fanado, primeira porção a ser desmembrada do território do Serro, a qual era por ela denominada de “Filha Predileta, cuja separação foi a mais pranteada e sofrida pela mãe Vila do Príncipe”.
Da antiga Vila do Príncipe recebi as mais preciosas informações históricas para, a partir delas, estabelecer cronologicamente os fatos que determinaram a colonização, a época distrital da mineração de ouro e diamante, os embates pela definição administrativa que se revezavam entre os governos mineiro e baiano, cujas administrações, cada uma interessada em ludibriar as autoridades portuguesas, preferiam que o Vale das Riquezas Minerais permanecesse isolado, oculto, selvagem, ignorante e ignorado, para assim ser mais facilmente espoliado sob o manto de uma omissão orquestrada que era interessante a ambas províncias. Aliás, esse triste desígnio tem sido o opróbrio dessa infelicitada região, o que se tem revelado pelo comportamento administrativo de todos os governos estaduais e federais que vêm se sucedendo deste a época do Brasil Colônia, como se infere desta própria história, com os desenlaces e consequencias que aos poucos se revelam pelas memórias escritas de Dona Maria Eremita de Souza e de outros escribas que se dedicaram à crônica da Vila do Fanado mas, muito mais do que pela história, pelos atos de rapinagem de políticos corruptos que ainda hoje entravam o progresso e o desenvolvimento do nordeste mineiro e, mais grave e acentuadamente, a debilitada e exaurida região do Fanado das Minas Novas.
Pedagogia da Cinta
--
geraldo mota
http://geraldomotacoelho.blogspot.com/
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
LENDA TRISTE DO BOI QUILEU E
DO PRIMO QUINÃO-O-ENTENDEU:
Passaqui, paçoca, esse boi
Boi-alado, mal e mau bolado,
Malungo do velho boi-mideu,
Foi para o baile,
estropiado,
do boi-de-manta,
Conhecido bailado de boi erado
na buscada da Santa.
Pois em festa de Jacu, boi errado não entra,
E, quando entra, é oito ou oitenta,
Vira vaca ou se espaventa.
-
Triste sina deste boi fraco:
Que caiu no samba desse balé de um boy atoleimado.
Pois foi lá qu'ele, de um boi ralado, comeu,
Ou, se ralou para comer do dito boi,
caiu n'água e morreu.
Coitado, se assim, ou se assado,
abaitolou-se e a tabuleta não leu.
Foi o boy, como um boi, que chifrou-lhe e lhe doeu.
-
Como foi qu'ele ralou um boi de mamão,
se não era sanhaço e tão pouco sofreu?
Foi com o mamão-de-boi que deu uma demão no seu quibebe,
Quando, lá, daquela água, baba de boi bebeu?
E como comeu, do que bebe e do mamão,
se foi com uma mão do boi ralado
Lá na manga, onde comia do boi de Quileu?
E como se ralou se nem Si,
nem Ré, nem Lá, sem Dó e nem Mi,
Lá não se ralaram?
E quando foi que o boi Calado,
Enganado pelo Veludinho de Canjola,
Foi-se engalanado para o Brejo
E lá se atolou, como uma vaca atoleimada
no Buraco do Córrego da Telena?
Um boi Rufino, fadado
a ser Rufiado
A ficar perdido na boca do lambe-sola,
este que ainda é um boi-do-cu-branco,
Perdido e achado nas barrancas do Fanado
Quando ele era marido da vaca de presépio,
Amasiada que lhe enfeitou a testa
com um par de cornos
e duas velas acesas no Caracu?
Ou foi o boi-da-cara-preta,
ao som do sino do Beleléu
Ao sinal da sineta
ou Maria do Sininho,
Que em dia de Natal,
sonhando com a Vaca de Linda-Teta,
Vem toda enfeitada de fita de seda
pra ver a Festa de Junho
E esta lendia não é uma peta,
Saborear do quentão
com gengibre e canela
Para comer do sobrecu do rei,
da galinha ou da sentinela,
A sete chaves guardado pela senhora rainha,
No meio do angu de caroço do Boi-Fubá
do congado a boi-bumbá?
Boi fugido quase na hora do doce e do frege,
Levando na cacunda o pote
da comida da quinta-feira do angu
não ficando nem aí, como se estivesse no ar,
O eterno roedor de pequi, carregador de defunto
Que morreu lá nos cafundós do Gravatá
Um boi sonso e insano, voador e a sonhar?
em dias de girândola, que acabou de pipocar,
(Ou seria de bombas acrobáticas de Elias Piolho, a riscar?)
Uma Catirina de Marcianinho,
ou de Chico Fogueteiro a purpurinar,
Ou essa artilharia não seria,
obrado de Nego Tiné, a estoirar?
Mas para quê teria ele, no meio de seu proibido mister,
Com um toco de braço e um pedaço de pé,
Em arriscado Espetáculo Pirotécnico
cercado pelo círculo do Centauro,
Na cornija de seu Migué,
Rezando e tomando rapé,
Mesmo não sendo boi,
de janeiro a dezembro,
mas um minotauro,
Sem fogos de artifício,
lançado ao precipício?
Quando o correto, o certo, o acertado,
foi, é e sempre será
o eterno Boi-Mideu...
Pé duro, treteiro,
Magrinho, Sem carne, Mateiro,
Sem terra, Sem dono,
Sem dinheiro
geraldo mota
http://geraldomotacoelho.blogspot.com/
SAUDADES DE ZÉ PRETO PARANÁ!
-
E foram amontoando lá no terreiro as tralhas, bruacas, esteiras, empanadas, pelegos, trapos de cortinas, cobertores desfiados, roupas velhas, vasilhas enferrujadas, palanganas e urinóis furados, cadeiras quebradas, bacias remendadas e quase tudo o demais que havia dentro daquele museu de inutilidades.
O pobre rapaz, muito do bem mandado, estava visivelmente assustado e curioso, ao mesmo tempo, diante daquela tamanha trabalheira e indagando, a si próprio, qual o fim que daria àquele considerável entulho, antes que a dona resolvesse que tudo voltasse a ocupar novamente as gavetas, os armários, a despensa e os quartos que, na verdade, ao serem desocupados, fazia parte do projeto dela de transformá-los em quartos para hóspedes, com a finalidade de engordar, ainda mais, as diversas cadernetas de poupança que mantinha na Minascaixa, cuja agência ficava logo ali ao lado.
E no propósito de arranjar mais um cantinho para mais um rendoso catre, foi despejando quinquilharias, antes guardadas como tesouro, naquele monturo que se foi formando entre a cobertura do forno e o cercado do galinheiro, até que chegou a vez dos babilaques, revistas forenses, súmulas desatualizadas e velhos compêndios de latim há muito entregues à sanha das traças, bem como uma estante enorme, tomada de vários pares de sapatos femininos de todos os modelos e cores.
Deparando-se diante destes antigos mimos, a velha dama quedou-se e se pôs a recordar dos tempos áureos em que aqueles lindos objetos de consumo, que eram seus presentes prediletos, constituíam-se em moeda de troca que impunha a todos que lhe solicitavam favores, no deslinde de seus interesses junto ao fisco municipal, no rateio de sinecuras e na distribuição do poder administrativo do marido frente à municipalidade.
Tempo bom, aquele pretérito recente, de vacas gordas, roças fartas, sótão abundante e burras cheias!
Tudo porém era diferente e a safra de votos já não se fazia tão fáceis. não estando muito favorável ao curral eleitoral da casa grande, de quem eram quarteirões, e o remédio era se consolar com as lembranças e cuidar de segurar o que restou daquele tempo de fartura, benesses e facilidades.
E a sovina dama, do alto do alpendre, observando cada passo do criado, no que ia ele cumprindo à risca a sua determinação, atirando ao forno cada objeto descartado, mandou-0 imediatamente que poupasse do expurgo os seus antigos calçados, pois aqueles eram como se fossem troféus e resolvera, de supino, a conservá-los. E, num ímpeto de apego àquelas relíquias, juntou-as, sofregamente, e as acondicionou, novamente, dentro de um grande jacá de taquara, do qual pouco antes haviam despejado mais de centena de garrafas vazias.
Eram, contudo, sapatos fora da moda que jamais seriam aproveitados para calçar aqueles seus pés, sempre tão altivos, que tanto já pisaram, no tempo de glórias, na dignidade e no atrevimento de seus desafetos e também naquela gente chinfrim da cidade que ela tanto detestava e tudo fazia para explorar e extorquir.
A antiga arrogância, que também não conseguia lançar ao forno da iniquidade, permitia à megera uma força magnética, como a obrigá-la ao resgate daquele lote de sapatos velhos.
Sentia a necessidade extrema de restaurá-los, dar-lhes novos brilhos aos cabedais, com o reforço de novas graxas. palmilhas, solados e saltos, o que lhe exigiria gastar uma boa grana, se acaso dispusesse de tê-los como novos.
Foi justamente neste momento que lhe ocorreu a ideia de mandá-los ao sapateiro, no que poderia matar dois coelhos com uma única cajadada ou, como era de seu gosto, matar a fome com a vontade de comer: há mais de ano e um dia que um de seus inúmeros locatários, ocupante de um casebre na Rua Direita, ali se instalara com sua tenda de remendão, permanecendo sem pagar o combinado, alegando sempre falta de serviços e faturamento, na tentativa de justificar a contumaz inadimplência, o que de fato era uma realidade da qual ela, como insensível às mazelas sociais, pouco se importava com as razões de quem – de fato - nenhum rendimento auferia naquela praça onde quase toda a população andava com os pés descalços, pouco havendo de se fazer um bom oficial que dependesse do resultado de reformar calçados inexistentes, pois no lugar eram poucos os cidadãos, como seu ilustre cônjuge, que tinha a felicidade de se darem ao luxo de andar com os pés calçados, protegidos naquelas ruas tortas, escuras, sujas e esburacadas.
Contudo, trato é trato, aluguel é aluguel e quem tem casa pra alugar tem por obrigação cobrar o que lhe é devido, nem que seja através de serviços prestados, o que assim estaria de bom tamanho para ambos.
E assim pensado, melhor assim foi que despachou o diligente Zé Melado em direção à tenda do sapateiro, seguindo ao mesmo que ia à frente, trotando como um burro de carga e levando na cacunda o pesado jacá com os ex-preciosos pares de sapatos que um dia desfilaram pelas ruas da cidade despertando a admiração e cobiça dos homens e a inveja das mulheres de pés rachados, as mesmas que, sob a ótica desprezível daquela anta, não mereciam nem mesmo lamber o chão por ande pisavam aqueles soberanos pés.
Foi logo chegando na sala do casebre - misto de residência e tenta de sapateiro -, entrou naquele humilde recinto com ares de proprietária, ordenando ao Zé Melado que despejasse a carga no meio da loja e que o remendão desse início imediato naquele trabalho que ela desejava fosse sem muita demora.
E o pobre do remendão, refeito do susto da visita e diante da proposta, ou melhor, da exigência, avaliou que aquela poderia ser a oportunidade de, além de saudar a dívida da locação imobiliária, também poder tirar algum proveito, mesmo que fosse para a propaganda de seu ofício, na esperança de atrair novos fregueses, pelo que haveria de empregar, naquela tarefa, o máximo de dedicação e arte, tendo para isto que comprar o material necessário e até mesmo contratar auxiliares para dar conta de todo aquele recado.
E o que antes era um marasmo, de repente se transformou numa azáfama de martelos, tenda onde o trabalho nunca terminava, varando pelo dia e atravessando altas horas da noite, vendo-se sempre ali a luz acesa para que o serviço fosse realizado conforme a encomenda, fato que não passou despercebido ao marido da referida senhora, embora lhe fosse desconhecida a causa repentina daquela animação que ali era por todos observada.
Mandou, assim, o ex-prefeito, uma carta de cobrança dos referidos alugueres atrasados que, segundo suas expectativas, poderiam agora, com o positivo faturamento da sapataria, serem finalmente quitados pelo devedor.
- Meu caro amigo Zé Preto (assim dizia a carta de cobrança): Diante do progresso de sua loja, não vejo, no momento, como se negará de pagar-me, enfim, as devidas locações de meu imóvel, o que intimo fazê-lo, sem mais tardar, esperando recebê-lo, incontinente, aqui em meu escritório, para tratarmos sobre os termos de um novo contrato, sob pena de determinar, de imediato, o seu necessário despejo.
Ao que foi providenciada a resposta, pela pena de um advogado amigo do sapateiro, desafeto do coletor, firmada em termos bem peculiares, para que o destinatário observasse, nas entrelinhas, esse particular e se certificasse de que estava bem patrocinado aquele que o cobrador julgava inadimplente:
- Certamente, prezado amigo senhorio e diligente locador, que lhe deveria – veja aí o verbo no modo condicional – e, se fosse o caso, o meu dever seria o de lhe pagar, não fosse já estar empenhada a quitação dos alugueres arguidos, isto em razão do serviço já prestado, por mim, referentes encomenda que foi feita, por ordem de sua respeitável consorte, referentes a 65 pares de sapatos diversos cujo restauro já se encontra executado, estando todos, perfeitos, à sua disposição, posto que tem sido este mister o meu trabalho neste último mês, sempre no intuito de ver quitado, como de fato já o tenho, este que era, até esta data, o nosso compromisso.
O que era determinado pela ex-dama, desde o feliz tempo em que era a primeira-esposa, nunca era ela contestada pelo marido e ele, pacificado e assim conformado, sempre muito cuidadoso para não melindrar-se conjugalmente, temeroso de ferir susceptibilidades em relação a seus segredos de homem galante e aventureiro, não restou alternativa a não ser a de dar-se por satisfeito e deixando como resolvida aquela questão, ao tempo em que, arrefecido o desejo da mulher em ter renovados tantos pares de calçados que lhe seriam supérfluos, também não os foi receber de volta, ignorando-os entre as demais bugigangas do remendão.
Com o passar do tempo Zé Preto viu-se na obrigação de dar destino justo àqueles vistosos sapatos, que em sua vitrine eram cobiçados, mas dos quais não podia se desfazer até que, por considerá-los como finalmente ignorados pela ex-dona, resolveu doá-los a quem os quisesse usar.
Escolheu, então, diferentes e variadas beneficiadas com aqueles mimos e ele próprio fez questão de fazer a entrega, a cada uma delas, como se a generosidade fosse presentes mandados, a cada uma das agraciadas, pelo mulherengo esposo da ex-dama, ao qual nunca antes ocorrera ofertar mimos dessa natureza pela satisfação de suas burlescas e galantes escapadelas.
Chegado o mês de junho, no dia da missa solene da Festa do Rosário, foi com a maior admiração de todos os que estavam no átrio da igreja, aguardando o desfile da procissão solene, que a cidade viu, só que em diferentes pés, aqueles conhecidos sapatos, que antes adornavam os pés mimosos da primeira-dama, agora enfeitando os pés rachados de diferentes e secretos amores do velho alcaide, o qual, sem muito o que fazer, depois se dignou de agradecer ao amigo “Paraná”, seu principal confidente, por aquele admirável gesto de amizade, senso de oportunidade, desprendimento, caridade e bom gosto.
E tudo ficou como dantes, e ninguém mais falou em cobrança de alugueis e resgate de velhos sapatos reformados, naquele antigo sobrado dos Abrantes.
-*-*-*-
Zé Preto Paraná, além de sapateiro, foi também um grande repentista e animador de bailes, nos quais se apresentava faceiro, com seu característico chapéu de feltro verde com uma peninha vermelha presa na fita, com um largo sorriso enfeitado com um enorme dente de ouro, ao ritmo do seu inconfundível pandeiro, cantando sem microfone as suas dolentes rancheiras que enchiam de dengo e encantamentos o Salão de Molas, o “CRIM de Zé Bustika, o carnaval do “Pernil” e os forrós do Clube Popular.
Partiu, desta empreitada terrena, na semana passada, o nosso bom mestre oficial de remendos e forrós. Lá se foi mais uma de nossas figuras populares que se juntam, lá no céu, a tantas outras, como João da Rocha e sua esposa Luzia, Berola, Socorro de Nazaré, Salia de Donata, Zé de Chico Tropeiro, Zezão, Nuninho e sua esposa Lia, Rodolfo Gomes, Zé de Maria Loura, Geraldona, Zé Moreira, Militão, Gabriel Borges, Gentil de Santa, JB Fernandes, Artur Quirino, Plínio Maciel, João Batista Alecrim, Wagner, Sargento Leão e muitos que tanto contribuíram, com a graça do talento e arte musical de alguns e o dom de dançar rodas, mangangás e forrós de muitos foliões, para fazer de nossa terra um lugar QUE ERA tão feliz e agradável de se viver.
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domingo, 3 de janeiro de 2010
sábado, 2 de janeiro de 2010
ASCOFAN - ação de cidadania fanadeira
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geraldo mota
http://geraldomotacoelho.blogspot.com/
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
A QUEM TENHA VERGONHA NA CARA!
--
geraldo mota
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